terça-feira, 17 de julho de 2012

Azuis


Estava sentado na cadeira fria de um restaurante. Os olhos cansados ardiam, depois de um dia tão cansativo. Conversava com uma mulher que havia conhecido pouco tempo atrás. Ela era bonita, tinha os olhos azuis e seus cabelos escuros caiam por cima dos ombros. Seu corpo era moldado em inúmeras curvas, fazendo com que os olhos do homem descessem inconscientemente. Por dentro, ele salivava. Imaginava o sabor delicioso, imaginava a sensação e o calor dos corpos se tocando.
O sorriso dela o provocava. Não deixava escapar nenhum dos seus graciosos movimentos, desde o inflar de seus seios ao encher os pulmões de ar, até o mais sutil abrir de suas pernas. Ria embriagado pelos instintos de animal, ou pior, pelos instintos de humano. Sua barriga estava gelada. Queria comer.
O garçom trouxe o arroz com brócolis e a carne-de-sol. Ele serviu a acompanhante e colocou um pouco da comida no próprio prato. Enquanto ela esvaziava o prato aos poucos, ele apenas remexia a refeição com os talheres, mais preocupado com a conversa.
- Não vai comer nada?
- Estou sem fome – respondeu, com um sorriso simpático no rosto.
Ela fitou demoradamente seus olhos, e isso atraiu sua atenção. Aquelas duas esferas azuis traziam lembranças que ele preferia esquecer. Desviou o olhar, mas já era tarde. A imagem de sua mulher já havia surgido em sua mente. Ela tinha pupilas iguais às daquela outra. De um azul que desnorteava qualquer um, seduzia e jogava aos pés.
O ódio que tinha começava a aflorar. Mastigava calmamente, enquanto sua mente sentia a pressão e o calor do sangue em excesso. Já havia se passado dois anos desde a morte dela. Ele não levara flores nem prestara homenagens em seu sepultamento. A última vez que a viu, antes do enterro, foi na tarde em que ela havia se deitado com seu melhor amigo. Rancor.
- Como seus olhos são belos.
- Obrigada!
A carne era triturada em seus dentes. Poderia muito bem ter devorado a traidora da mesma forma. Afinal, não era muito diferente de uma vaca. De sua antiga relação com ela, só se arrependia de não ter dito tudo o que queria antes que ela morresse, e de não tê-la matado com as próprias mãos. Amaldiçoados fossem aqueles olhos dissimulados.
- Está tudo bem? Você está transpirando...
- Não, está tudo bem... É que essa blusa é muito quente.
Fora assassinada. Depois que se separaram, ela se mudou para casa do amante. Algumas noites depois, enquanto assistia a um filme, o homem chegou drogado em casa e a matou a facadas. Como sentia inveja da oportunidade que ele tivera. Seria a chance de limpar sua alma de toda aquela dor.
O prato estava vazio e já era tarde. Estava com frio mesmo naquela noite quente. Sentia-se mal e seu estomago embrulhava, não sabia o porquê. Olhou novamente para a mulher, e novamente encontrou seus olhos. Sentiu um nó na garganta.
- Bem, já está tarde, acho que já vou embora. – disse ela.
Ele pediu a conta, e ambos se levantaram. Estavam caminhando até a porta, quando a perguntou, hesitante.
- Eu estava pensando... Poderíamos ir ver um filme lá em casa, se você quisesse.
Estava suando. Ela sorriu e lhe deu um beijo no rosto.
- Você não parece estar bem hoje, e amanhã eu tenho que trabalhar cedo. Quem sabe outro dia, mas obrigado pelo convite!
Ele suspirou fundo e sorriu. Despediram-se, e ela caminhou em direção ao carro. Os faróis, duas esferas de luz, pareciam estranhamente azulados ao se afastar do restaurante.
- Quem sabe outro dia...

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